HISTÓRIA, CULTURA E MAGIA QUE VIVI ÀS MARGENS DO VELHO CHICO

Mara Rita Rhoden

Centro Histórico – Foto – Wilson Soares (Abrajet Pará)

Como gosto de viver a História! Saber dos detalhes dos costumes de um povo! Como aprecio compartilhar das experiências de gente que estudei nos livros escolares! E foi com o sentimento de intimidade que conheci, entre os dias 27 e 30 de maio, durante reunião de Conselho da Associação Brasileira de Jornalistas de Turismo (ABRAJET), Piranhas, no estado de Alagoas, um dos destinos mais fascinantes do sertão do Nordeste. Considerada uma das cidades históricas mais importantes da região, Piranhas reúne patrimônio cultural, memória do cangaço e algumas das mais belas paisagens do Vale do São Francisco.

Localizada no oeste alagoano, na divisa com Sergipe, a cidade completou 139 anos de emancipação política em 3 de junho. Com cerca de 23 mil habitantes, segundo estimativa do IBGE em 2025, seu desenvolvimento foi impulsionado pela navegação no Rio São Francisco, pela ferrovia e, mais recentemente, pela Usina Hidrelétrica de Xingó.

Os livros escolares, os órgãos institucionais, os veículos de comunicações são fiéis ao mostrarem recortes da cidade, mas nada se compara ao olhar pessoal. O encantamento é emocional, sentimento que nenhuma ciência é capaz de produzir.

Sim, às margens do Velho Chico, como é intimamente chamado o Rio São Francisco, Piranhas encanta pelos casarões coloridos, ruas de pedra e pela forte ligação com a história do cangaço. Foi para lá que foram levadas, em 1938, as cabeças de Lampião, Maria Bonita e outros cangaceiros após a emboscada na Grota do Angico (SE), episódio que marcou o início do fim do cangaço no Nordeste. Por esse motivo, o município tornou-se um dos principais cenários históricos relacionados à trajetória de Lampião.

Passeio no Rio São Francisco – Foto Wilson Soares (Abrajet Pará)
Passeio pelos Cânions do Rio São Francisco – Foto – Wilson Soares (Abrajet Pará)

A programação da Abrajet Alagoas, juntamente com a Prefeitura Municipal reservou momentos inesquecíveis. No Centro Histórico, assistimos à apresentação do grupo Guerreiros do Sertão, referência na preservação do xaxado, dança criada pelos cangaceiros e que se tornou símbolo da cultura nordestina. Acompanhando o espetáculo, Sávio do Acordeon e banda brindaram o público com interpretações marcantes e arranjos criativos que renovaram clássicos da música regional. Merece destaque especial o triangulista, cuja habilidade e carisma conquistaram os presentes.

Guerreiros do Sertão – Foto – Susana Barros (Abrajet Tocantins)

Quem me conhece sabe, sou da música e onde tem um toque de um instrumento raiz me faz parar.

Imagens – Susana Barros (Abrajet Tocantins)

Parei e vou explicar: para compreender a emoção da apresentação, é importante conhecer um pouco da história do xaxado. A dança surgiu entre os cangaceiros do Sertão do Pajeú (PE), na década de 1920, como forma de celebrar vitórias e momentos de confraternização. Inicialmente dançado apenas por homens, passou a incluir mulheres após a entrada de Maria Bonita e outras companheiras no cangaço. Música popularizada nacionalmente por Luiz Gonzaga, com sanfona, triângulo e zabumba, a dança do xaxado é marcada por movimentos que representam a caminhada dos cangaceiros pelo sertão e por figurinos inspirados na estética do cangaço, preservando até hoje uma das mais autênticas expressões da cultura nordestina.

Foto – Wilson Soares (Abrajet Pará)

Piranhas tem curiosidades que ajudam a explicar sua importância histórica e cultural. O nome da cidade surgiu em razão da grande quantidade de piranhas encontradas nas águas do Rio São Francisco. Ao longo do tempo, o município também recebeu o carinhoso apelido de “Lapinha do Sertão”, atribuído à visita do imperador Dom Pedro II, encantado com a beleza da região. Seu Centro Histórico, tombado pelo IPHAN, está entre os mais bem conservados do sertão brasileiro, reunindo casarões coloridos, ruas de pedra e um rico patrimônio cultural que atrai visitantes de todo o país.

Mais do que um destino turístico, Piranhas é um encontro entre história, cultura, música e natureza. Caminhar por suas ruas, contemplar as águas do São Francisco e vivenciar suas tradições é uma experiência que permanecerá em minha memória. Fica a certeza de que o retorno à cidade será sempre uma oportunidade para renovar as energias e reviver a magia de um dos mais encantadores cenários do sertão brasileiro.

Gostou de saber do que vivi e descrevi? Então venha conhecer Piranhas, tenho certeza que sua alma e sua mente vão agradecer!

Edição: Arlete Carvalho

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